Literatura espiã

Os Espiões

Os Espiões

Por trás de um grande texto existe uma grande história. Ou uma pequena história nas mãos de um grande escritor. Ou apenas uma compulsão, algo instigante, uma dúvida. Ignácio de Loyola Brandão, em palestra esta semana, como contou uma aluna, não se preocupa em buscar as histórias, apenas prepara-se para ouvi-las. Sem carro, percorre as cidades nos transportes públicos, espaços povoados por pessoas que correm e andam em direção aos seus destinos. Nos encontros casuais, encontra o que coloca em seus textos, nos quais adequa as vírgulas para tratar do ritmo e pronto, foi apenas o emissário de algo maior.

Dos copos no bar do Espanhol às páginas de um diário-testamento, os personagens de Os espiões, de Luis Fernando Verissimo, se deixam levar pelo fio de Ariadne para tentar descobrir o que existe além daquele labirinto de frases misteriosas e ausência de vírgulas. Das brigas entre um gole e outro para uma elaborada operação de espionagem que envolve mitologia, De Chirico e futebol, nada melhor que a grande mestra literatura e seus grandes escritores como guias.

Envoltos pelo ritmo intenso (crônico? cronístico?) de Verissimo, os personagens trazem as peculiaridades do autor e tornam a narrativa, mesmo se enfadonha (não é o caso), divertida. O protagonista trabalha para uma editora e o humor para aceitar ou rejeitar as obras encaminhadas varia conforme a ressaca, sendo segunda-feira o pior dia para o sucesso de um original. Seduzido pelo texto anônimo que recebe em cópias enviadas por uma amiga da autora, envolve os companheiros de bar.

Um deles é Dubin, um poeta menor, na altura, professor e sedutor, repleto de lorotas, que se prontifica a ser o grande agente da operação para descobrir o que está por traz da história de traição que vem pelo correio. Com ele são travadas os grandes embates, com cenário etílico, nos finais de semana, em que justamente a vírgula é o foco. O Espanhol, dono do bar, os cala nos momentos de maior entusiasmo.

Atento a tudo e misterioso quanto a sua vida pessoal, o sabujo professor Fortuna, amplo conhecedor da literatura e da filosofia, íntimo de letrados mundo afora, capaz de contar detalhes dos casos amorosos dos bastidores da litearatura. Autor de máximas como “A literatura terminou com Sófocles. Tudo o que veio depois é post scriptum.” e conhecedor do sexo tântrico, que aprendeu em viagem à Índia.

Ao trio soma-se Fulvio Edmar, autor do livro Astrologia e amor: um guia sideral para namorados, que briga com a editora pelos direitos autorais. Constantemente atento às conversas de botequim, segue com o complô na busca pelo mistério da pequena cidade de Frondosa. O lugar também tem seus atrativos, como o diretor marxista do jornal, o Uruguaio, que assim é conhecido por ter apostado no Uruguai na final da Copa de 50 (e por isso ficou rico), o bordel atrás do cemitério e o padre Bruno, surdo.

Em meio ao mistério literário, a trama política envolve família, gângsters, empresários, adultério e incesto. O leitor é que fica na constante dúvida sobre o quanto daquilo faz parte de uma história criada pelos personagens ou é a verdade de uma cidade em que nada é simples.

Simples, aliás, é a escrita de Verissimo, ou assim parece. A escolha de palavras dá o tom de humor mesmo nos momentos mais trágicos e leva a perguntar sobre seu processo e suas motivações. O exercício diário das crônicas e dos contos se mostra na fluidez da narrativa e a luta com as palavras na busca pela saída do labirinto foi travada, como o próprio conta em outro texto, se com muita violência, no estilo do xadrez, em que a ira é velada e a classe sobressai. Se funciona para o autor como para os personagens, que continue se embriagando com palavras e nos tire do copo a cada fio que nos lançar.

Gustavo Burla

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